[Paulicéia 006] Alexandre Youssef: "Cultura é saída sustentável para crise pós-pandemia"

Para Secretário, setor cultural precisa se enxergar como protagonista político.


TL;DR
👉 Alê Youssef conta que Bruno Covas o convidou para assumir o cargo de Secretário Municipal de Cultura. 2019 foi um grande ano para a cultura em São Paulo, com o festival Mário de Andrade, Virada Cultural e reformas de centros culturais nas periferias. A pandemia escancarou a necessidade de realizar ações de apoio à classe artística frente à criminalização da cultura por setores conservadores. O Museu de Arte de Rua foi destaque em reportagem do New York Times.


Na primeira parte da conversa, enviada segunda-feira, Alê Youssef falou sobre o Modernismo22+100, a grande comemoração do Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Falou também sobre a possibilidade de um Carnaval de rua em São Paulo em 2022 – que depende, claro, da Secretaria de Saúde.

Nessa segunda e última parte Youssef analisa a urgência da organização do setor cultural, destaca o Museu de Arte de Rua e conta como foi o convite de Bruno Covas para ocupar o gabinete da Secretaria de Cultura.

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Mirando 2022

“A cultura é uma das saídas justas, próprias, democráticas e sustentáveis para a crise pós-pandemia. Como é que o Brasil, que tem uma potência de 27 culturas diferentes em 27 estados diferentes, ricos, com festas populares, não utiliza isso na sua plenitude? Por que o discurso de incentivo para o agronegócio, para a indústria automobilística, tem que ser normalizado e para a cultura tem que ser demonizado? Se você analisar o impacto, é patético. O impacto dessa discussão da Rouanet é uma fração do que se incentiva para as outras áreas. Nós somos o país do Carnaval, dos arraiais, das festas populares, da música sertaneja, funk, hip hop, todas essas expressões urbanas. A gente tem potencial, por que não traçar um projeto de desenvolvimento baseado nesse potencial?

O setor cultural precisa aprender a ser protagonista na política. Trabalhar para colocar a cultura no eixo central de desenvolvimento econômico e social das cidades, dos estados e do país. 

A cultura vai sair dessa situação horrorosa de ataque, de cerceamento, de impossibilidade. Vai levantar com altivez e falar: olha aqui, estamos aqui, somos uma saída para o Brasil. A cultura nunca vai deixar de ser. Ela pode ter apoio ou não, mas vai continuar existindo. É o nosso principal signo de identidade, é a representação da diversidade. É história, é a nossa alma.


Chegada ao gabinete

"Nos primeiros dias de janeiro, recebi uma mensagem do prefeito Bruno Covas... com quem eu não tinha nenhuma relação, é muito importante frisar isso! Não existia articulação sendo feita, até porque venho de um campo diferente do tradicional do PSDB. Mas ele me convida e, vendo depois, essa foi a sacada de um político muito ousado, com bastante envergadura. Ele perguntou o que eu achava da cultura da cidade, e eu falei o que eu achava que tinha sido a gestão do André Sturm, então secretário. Falei que eu achava que a Secretaria estava desconectada dos movimentos culturais da cidade; que existia um tensionamento entre a Secretaria e os movimentos culturais da periferia; que as pautas tradicionais e progressistas da cidade com relação à cultura não estavam sendo ativadas; que existia um movimento emergente de ocupação cultural; que esses movimentos, se potencializados pelo poder público, levariam a uma situação interessante. Depois do meu diagnóstico, ele me convida para assumir a Secretaria de Cultura. O Bruno Covas entendeu o potencial da ocupação cultural como valorização da identidade e da geração de emprego e renda, de inclusão social. Falei 'só posso aceitar se for contraponto ao governo Bolsonaro, porque ele já acabou com o Ministério da Cultura, quero me colocar contrário ao governo, eu vou falar mal do Bolsonaro'. Ele respondeu que, sim, claro, isso é óbvio. 'Só posso aceitar se tiver liberdade de convidar gente progressista, gente de esquerda para compor os principais cargos da Secretaria, porque senão não vai ter aderência com o movimento cultural da cidade'. Ele me deu total liberdade nisso também. 'Só posso aceitar se tiver recursos para fazer reformas nos equipamentos culturais da periferia da cidade, porque não quero ser o secretário do Baixo Augusta, da esquerda moderninha'. Falei que apesar de eu ter sido a pessoa que fez o Acadêmicos do Baixo Augusto, o Studio SP, de ter relação com essa geração, eu ia procurar um trabalho de construção de pontes. E ele falou tudo bem. Consultei vários amigos de esquerda, de direita, progressistas, vinculados a movimentos culturais tradicionais. Falei com muita gente e todos disseram: aceita! 

O cara que sacramentou minha decisão foi o (antropólogo) Hermano Vianna, que falou: você tem que aceitar para fazer as coisas boas, bonitas e fortes que só a cultura pode proporcionar.

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São Paulo, capital da cultura

“O ano de 2019 foi um dos anos mais produtivos e poderosos da política cultural da cidade. O Carnaval de 2019 teve uma qualidade e uma liberdade muito grandes, porque já entrei atuando como interlocutor com os blocos. A maior Virada Cultural da história foi a desse ano, com cinco milhões de pessoas em palcos na cidade inteira, sem negar a cultura independente e com participação de música gospel, da música sertaneja e do funk. Também em 2019, ganhamos o APCA com a Jornada do Patrimônio, com resgate histórico do modernismo e de personagens importantes como o Adoniran Barbosa. 

“Fizemos uma reocupação do Theatro Municipal: 51% do público total em 2019 foi de gente que nunca tinha pisado ali. Levamos projetos como o Festival Mário de Andrade, com a Fernanda Montenegro lendo suas memórias. E o show do Emicida, o “AmarElo”, também ganhou APCA, dentro do Mês da Consciência Negra.

“2019 foi um momento muito rico na estruturação de políticas públicas. Inauguramos as Casas de Cultura de Parelheiros e de Guaianases, fizemos vinte grandes reformas de equipamentos públicos culturais como nas Casas de Cultura de São Rafael e de M'Boi Mirim. Também reativamos o Conselho Municipal do Livro, Leitura e Biblioteca. Isso foi muito interessante, porque o Dória e o Sturm tinham aniquilado o conselho, falavam que não era um conselho legítimo porque só tinha petista, algo assim. Mas qualquer Secretário de Cultura sabe que o que importa é o conteúdo, é ele que você tem que apoiar.

“Em menos de dois anos, saímos de uma situação em que todo mundo criticou o Prefeito e o Secretário de Cultura por apagarem os grafites da Avenida 23 de Maio, para uma reportagem de capa do NY Times elogiando a cidade, mostrando que que São Paulo é uma galeria a céu aberto.


Museu de Arte de Rua de São Paulo

“Esse programa foi criado em 2018 como tentativa de consertar a besteira que foi o apagamento dos grafites da 23 de Maio, alardeada por todo mundo, com razão. Colocamos R$1,5 milhão, na primeira versão, em parceria com as subprefeituras. Demorou para conseguir esse status de apoio, mas hoje em dia são R$5 milhões em ações semestrais em toda a cidade.

A versão do MAR que está acontecendo agora é a maior de todas, está espalhada pela cidade. Pela primeira vez nós chamamos figuras para fazer curadoria baseadas no território e dividimos de forma equânime as intervenções e instalações.

Chegada da pandemia

“A pandemia foi decretada logo após o maior Carnaval da história da cidade, com 15 milhões de pessoas. Foi tristeza profunda, já antevendo a crise que a cultura iria viver, depois de um momento de efervescência e valorização do setor. Lembro de ter pensado que, pior ainda, uma crise somada aos ataques do governo federal. A ansiedade era saber como uma política cultural se daria nesse ambiente de restrição. Eu só pensava em criar processos de injeção de recursos no setor e na classe artística. Criamos o Janelas de São Paulo, que foi bombardeado pelo bolsonarismo e pelo MBL. Eles vinham com um discurso pronto, ridículo, patético, de que ‘não pode apoiar cultura, tem que apoiar a saúde’. Isso é falta de compreensão do funcionamento do Estado e de suas diversas rubricas, diversas áreas. Esse começo foi muito duro. A gente queria que o músico tocasse em casa, para os vizinhos, colocasse na internet. Era uma coisa que estava acontecendo no mundo inteiro, e era uma forma de repassar recursos, porque a gente sabia que uma galera estaria ferrada, sem trabalho.

“A Secretaria de Cultura fez milhares de contratações artísticas através das casas de cultura, centros culturais, teatros e bibliotecas. O Janelas foi impedido pela Justiça, teve mandado de segurança e liminar para proibir. Se você fizer uma linha do tempo até 2021, vai ver que aconteceu a mesma coisa quando fizemos o festival Tô Me Guardando de Carnaval: teve um vereador do MBL que entrou na justiça e proibiu. Mas o Tô Me Guardando era uma série de ações e ele bloqueou só o chamamento. Então as outras tantas ações permaneceram, como contratações diretas e intervenções.

“Essa é a lógica da criminalização da arte, do artista. Esse discurso vem do bolsonarismo que fala que o artista é corrupto porque tem 60 milhões na Rouanet, cria essa imagem ridícula de que todo artista tem um armário chamado Rouanet. É patético.


Na próxima edição do Paulicéia:
Jochen Volz, diretor da Pinacoteca do Estado, conta como a instituição se manteve ativa durante os meses de restrição e comenta a programação de 2022.