[Paulicéia 013] Vai ter turismo em São Paulo, sim.

"Somos o maior eixo cultural do hemisfério sul e seremos reconhecidos como destino-desejo internacional," diz o guia profissional Renato Crestincov.


Eu comecei a ver São Paulo com olhos de turista numa época em que viajei muito. Essa fase começou em 2014, quando trabalhei para um site norte-americano de roteiros de viagem, e foi bem até meados de 2019, quando fiz minha última viagem paga por terceiros. Nunca profissionalizei essa coisa de rodar o mundo com tudo pago, apesar de ótimas experiências em lugares como África do Sul, Índia e Colômbia. E conforme fui ficando em São Paulo, fui aprendendo a ver a cidade com olhos de viajante, tirando tempo para visitar os muitos museus e parques, comendo em restaurantes fora do eixo Jardins-Pinheiros e aprendendo que a história da cidade não é exatamente a que aprendi na escola — sou do tempo em que se ensinava que o Borba Gato era herói, imagina!
 

O resultado dessas explorações na minha própria cidade é que passei a achar São Paulo uma cidade incrível. E lá por 2016 me espantou saber que São Paulo não era a cidade mais visitada do Brasil: em premiação da época, o TripAdvisor (lembra dele?) sequer listava a cidade. Acontece que São Paulo ficou muito tempo limitada ao tal 'turismo de negócios': gente que vem para fazer reuniões, feiras ou conferências e acaba encaixando uns passeios no tempo livre. Após a entrada de megafestivais como o Lollapalooza no calendário, a cidade ganhou importância como destino para o turismo de eventos. Parada LGBTQIA+, festival de cinema, o Carnaval de rua, Restaurant Week e Virada Cultural, além de eventos tradicionais como as Bienais de arte e livros, e um roteiro quente de enormes shows internacionais anunciados com meses de antecedência, aumentaram o interesse pela cidade. Tanto que em janeiro de 2020 o Google identificou que São Paulo era a segunda cidade mais desejada como destino turístico no mundo, atrás de Da Nang, no Vietnã. Entre os turistas brasileiros, a mesma pesquisa apontou São Paulo como terceiro lugar, atrás de Londres e Rio.

Faz pensar o que teria acontecido em um cenário sem pandemia.

Tudo muito bom, mas se São Paulo é uma cidade desafiadora para quem mora aqui, imagina para quem visita. Com guias limitados a roteiros entre Ibirapuera e Avenida Paulista, nem sempre era fácil achar os outros muitos museus, lojas, restaurantes e até aldeias indígenas que existem na cidade. É esse tipo de roteiro que o guia profissional Renato Crestincov, 41, paulistano da Mooca, passou a oferecer.

Renato já passou por diferentes agências de turismo em São Paulo e acabou se especializando em criar roteiros personalizados para turistas internacionais interessados em arte e design brasileiros. Além disso, é um dos poucos guias a realizar um trabalho frequente com os povos das Terras Indígenas da cidade – foi ele que nos levou para conhecer os Guarani Mbya lá na primeira edição do Paulicéia. Durante a pandemia, vendo o público minguar, se dedicou a dar aulas de inglês (Renato fala quatro línguas, estuda o idioma guanari e faz mestrado em francês com foco em receptivo de turistas) e a criar tours virtuais. Mas com a reabertura do comércio da cidade, identificou um crescente interesse de estrangeiros por São Paulo — a SPTuris confirma aumento de mais de 21% na atividade turística em São Paulo em dados de maio desse ano, movimento favorecido pela baixa do real em relação a outras moedas e flexibilidade dos nossos aeroportos.

Na entrevista abaixo, ele fala sobre suas tours para estrangeiros. E volta na edição de quarta-feira indicando quais são seus programas preferidos em São Paulo.

Gosto de acreditar que seremos reconhecidos como destino-desejo internacional por sermos o maior eixo cultural do hemisfério sul do planeta.


Como você acha que será o turismo em São Paulo a partir de 2022?

Acredito que o turismo de lazer vai voltar com tudo. As pessoas estão ansiosas para viajar novamente, e as feiras e eventos também devem voltar a acontecer. As versões digitais desses eventos geram menos negócios que as versões físicas, em que as pessoas criam relações mais consistentes e podem demonstrar e experimentar produtos ao vivo. A Beauty Fair, por exemplo, onde os profissionais da beleza podem testar os lançamentos de produtos cosméticos, sentir o aroma, a textura... nada disso é possível no digital. Mas boa parte do turismo de negócios vai continuar nas reuniões digitais. Ainda não se sabe ao certo como será a equação final desse novo cenário para a cidade de São Paulo, que tem no turismo de negócios um dos seus principais mercados. Mas há muito potencial para a cidade se consolidar como destino de lazer do público internacional. Gosto de acreditar que seremos reconhecidos como destino-desejo internacional por sermos o maior eixo cultural do hemisfério sul do planeta.


Em relação à tour de arte e design: quem é seu público?

Meu público-alvo é bem abrangente e engloba desde pessoas que querem apenas fazer algo diferente do tradicional até curadores, colecionadores, galeristas e artistas. O tour de artes e design é uma extensão da parte arquitetônica e de museus do tour tradicional, e é criado de acordo com os interesses pessoais de cada cliente — todos os meus tours são privativos e personalizados. Recentemente, recebi um artista plástico norte-americano que gostava muito da Beatriz Milhazes e eu não o levei apenas à exposição do MASP, mas marquei um encontro com o Alex Gabriel, da galeria Fortes D'Ayola & Gabriel, que representa a artista, na semana entre o Natal e o ano novo, quando a galeria estava fechada. Meus clientes buscam este tipo de acesso. Se eu vejo que alguém gosta da arquitetura do Paulo Mendes da Rocha, levo na Futon Company para conhecer a cadeira Paulistano. Também gosto de levar à Passado Composto Sec XX para conhecer a fantástica curadoria de tapeçarias modernistas da Graça Bueno. Outro exemplo: o cliente é surfista, levo ao atelier do Carlos Motta e na ATTOM. A possibilidade de personalização é infinita. Neste ano, eu atendi apenas cerca de vinte pessoas, a maioria dos EUA e da Rússia, mas também da Alemanha, Romênia e Suíça.

O brasileiro não dá valor à arte e design do país, mas o modernismo brasileiro é um fenômeno mundial. Eles ficam fascinados pela história da antropofagia e pela forma como o Movimento Antropofágico e a Tropicália moldaram a identidade brasileira no século XX.



Qual é a reação normal dos clientes internacionais em relação ao que é produzido no Brasil?

O brasileiro não dá valor a design criado no país, mas o modernismo brasileiro é um fenômeno mundial. Eles ficam fascinados pela história da antropofagia e pela forma como o Movimento Antropofágico e a Tropicália moldaram a identidade brasileira no século XX. O Modernismo Paulistano também chama muito a atenção, tanto na arquitetura quanto no mobiliário. Meus clientes costumam comprar muito na Dpot Objeto, é como se fosse a lojinha de souvenirs deles. Eventualmente, também compram obras de arte e móveis assinados, que depois são enviados para suas residências ao redor do mundo. Além disso, roupas e acessórios também costumam entrar no itinerário das compras, e faço questão de apresentar o trabalho de brasileiros.

Como você realiza sua pesquisa para chegar até os roteiros?

A pesquisa é contínua, eu costumo guiá-la pelo meu próprio gosto pessoal. Sou apaixonado por arte e design brasileiros e amo mostrar tudo aos visitantes internacionais. Um tour padrão dura entre quatro e oito horas, mas já cheguei a acompanhar um cliente por uma semana toda. Era um dono de hotel de design da Ilha de Creta em busca de móveis, objetos e tapeçaria brasileira.

Sobre o turismo com os povos indígenas: como você chegou aos Guarani Mbya? Como os turistas costumam reagir? Qual a maior dificuldade do turismo indígena em SP, e como superar?

Eu conheci a aldeia numa visita ao Jaraguá e cheguei lá propondo visitas e aprendendo como eles trabalham. Construímos nossa relação com o tempo. A infraestrutura das aldeias é precária e isso certamente é um desafio para o turismo. Os turistas costumam ficar tocados pela vulnerabilidade social, que é aparente, e pelo tremendo choque cultural que a experiência proporciona. São Paulo é a única grande metrópole do planeta com terras indígenas tradicionais dentro da cidade, e é sempre surpreendente conhecer o modo de vida Guarani, que vivem literalmente a minutos de distância de bairros como Lapa e Vila Madalena. Mas seria interessante os próprios Guarani falarem sobre as dificuldades a partir das suas perspectivas e expectativas sobre o turismo.



O ToursByLocals é uma plataforma super exigente com seus guias. Como você entrou no cast de agentes deles?

Me cadastrei e aguardei uma vaga em São Paulo, depois participei do processo seletivo e passei. A ToursByLocals é uma organização de turismo comprometida com experiências cinco estrelas, e qualquer tour na plataforma que receber uma avaliação menor que isso passa pelo departamento de qualidade para um treinamento. Em 2019, até março de 2020, eu dava esse treinamento para guias de todo o mundo. É a única plataforma digital para guias que tem esse rigor e comprometimento com experiências cinco estrelas


Na edição de quarta-feira

O Renato Crestincov indica seus cinco lugares preferidos em São Paulo.
E uma lista de coisas legais que estão acontecendo na cidade.