[Paulicéia 024] Bruno Bocchese: "Em São Paulo as coisas têm começo, meio e fim"

Publicitário e empresário, criador do Mandíbula e do Fel, fala sobre fechar (e abrir!) bares durante a pandemia

Quando Bruno Bocchese abriu o Mandíbula em abril de 2014, junto com André Bandim, São Paulo era outra cidade. Se falava muito em retomada do espaço público, festa de rua, e viver no Centro estava voltando a ser legal. O Mandíbula, um pequeno e fervido bar dentro da galeria Metrópole, foi sintoma singular desse momento da cidade. Não sobreviveu ao ano de 2020, mas gerou pelo menos três novos espaços: o Fel, o Cama de Gato, e o Paloma, boteco de vinhos no térreo do Copan que abre ainda esse mês. Todos ali, pertinho do Mandíbula, da Metrópole, da Dom José Gaspar, da República, da Roosevelt – um Centro de São Paulo que resiste ao momento pandêmico.

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Gaía - Qual era a motivação de vocês na época em que abriram o Mandíbula?

Bruno - A principal motivação, acho que pros dois, era fugir da propaganda. Nós dois éramos redatores e não queríamos mais o estilo de vida da propaganda. Que até mudou um pouco, pelo que eu percebi agora na minha volta, mas era essa coisa insana de não ter horário, de não ter nenhum respeito com sua vida privada. A gente não aguentava mais aquilo. E o Mandíbula não nasceu para ser um bar né? Nasceu para ser uma loja de discos e um café. Eu queria vender discos, trabalhar com isso, e o André queria ter um café. Só que calhou de a gente ter amigos muito festeiros. E a gente tinha uma cervejinha lá que era só para acompanhar aquele rolezinho tranquilo. Só que na primeira semana já virou festa. Culpa do nosso círculo social e também de nós mesmos. 

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Por que vocês escolheram um espaço dentro da Galeria Metrópole?

Eu tinha uma ligação afetiva com a Galeria Metrópole, de infância, por causa do cinema, que era um lugar que eu frequentava bastante com meu pai. Eu ia praticamente todo final de semana, não só na Galeria Metrópole, mas nos cinemas de rua do Centro. E eu tinha essa lembrança de que era um lugar incrível, muito bonito. Mas além disso, a gente queria que fosse um lugar escondido, procuramos muito nos calçadões aqui do Centro. O que a gente queria era que uma portinha que tivesse o café e a nossa loja de discos. A gente não queria um lugar na rua onde, eventualmente, alguém tá passando e entra. Queríamos que as pessoas fossem ao Mandíbula porque sabiam que existia esse lugar. Somada a essa minha relação pessoal com a galeria, acabamos indo para lá.

Depois veio o Fel, qual a história dele?

O Fel foi uma coisa circunstancial. Tinha um amigo meu que sempre falava de abrirmos um negócio juntos e ele apareceu com esse imóvel no térreo do Copan. Fui ver o espaço meio na inércia, saímos de lá falando e encontramos o André Godoi, que é meu sócio no Fel até agora. O Fel nasceu de uma vontade minha do André de criar um bar de coquetéis clássicos1. Era uma percepção nossa, naquele momento, e talvez até hoje, de que a coquetelaria em São Paulo pulou de um lugar clássico para um lugar autoral sem se solidificar. Houve esse salto muito direto para a coquetelaria autoral sem que a coquetelaria clássica fosse de fato difundida por aqui. Isso foi no final de 2017.

Desde o dia em que o Mandíbula se estabeleceu como aquele bar-balada, a gente sabia que tinha começo, meio e fim, porque é como as coisas funcionam em São Paulo.


E o Cama de Gato?

Eu e o André Bandin já estávamos pensando uma evolução do Mandíbula. A galeria estava ficando inviável, porque as decisões da administração interna eram muito arbitrárias e foi ficando mais difícil trabalhar lá. O Cama de Gato foi essa saída de abrir outro negócio enquanto a gente ainda tinha caixa. Meio que migrar com uma proposta diferente. Conseguimos transferir boa parte do público do Mandíbula para lá, muita gente começou a frequentar o Cama de Gato. O Mandíbula, do ponto de vista de negócio, foi uma coisa muito inesperada para nós, muita sorte de principiante, retornou o investimento em seis meses. Desde o dia em que ele se estabeleceu como aquele bar-balada, a gente sabia que tinha começo, meio e fim, porque é como as coisas funcionam em São Paulo.

Você previa que ia durar quanto tempo?

Uns sete anos. O Fel, não, quando pensei o Fel já era uma coisa mais perene, e ele tem se mostrado isso mesmo, ainda está em crescimento, indo para o quarto ano e continua crescendo. Consigo imaginar o Fel existindo daqui a 10 anos. O Cama de Gato tinha dois anos quando veio a pandemia. Não sou mais sócio do Cama de Gato, vendi minha parte pro André. Ele deve reabrir em outubro.

Você lembra do momento em que você entendeu que ia rolar uma pandemia e ia ter que fechar tudo?

Foram caindo pequenas fichas, não teve um dia específico que eu falei assim, fudeu. O Mandíbula tinha uma programação e os DJs que iam tocar na semana seguinte começaram a cancelar, pedir para esperar umas semanas, aquele clima tenso. No Fel e no Cama de Gato não teve isso. O Cama de Gato a gente não abria domingo e segunda, no sábado a gente abriu e o movimento já foi 50% do nosso faturamento normal, aí na terça foram três pessoas. Aí já tínhamos decidido que ia fechar por medo, a gente não sabia exatamente o que ia vir, para que vou ficar arriscando a equipe? 

O Cama de Gato foi um dos primeiros a fazer aquele movimento de crowdfunding2...

Eu diria que o primeiro, na real.

Como rolou isso?

No desespero. Avisamos que não abriríamos mais até segunda ordem e já lançamos o crowdfunding. No momento em que cortou a receita, tinha grana para pagar o adiantamento da galera no dia 20, mas eu não sabia como ia pagar o salário deles dia cinco, saca? E todas as outras despesas também, mas o que tirava meu sono era o salário da galera. Aluguel se negocia, mas o salário da galera não dá para negociar. Em um negócio pequeno você cria uma relação próxima com as pessoas, você sabe as necessidades de cada um, sabe quem eventualmente tem um suporte familiar para não passar tanto perrengue, e quem não vai ter grana pro supermercado no final de semana, sabe? Era estressante pra caralho pensar que de alguma forma o meu negócio poderia gerar esse sofrimento para as pessoas. Então foi nesse contexto que a gente fez o crowdfunding.

As pessoas compraram, literalmente, a ideia?

Acabamos arrecadando 25 mil, perto disso. Achei bastante relevante. Depois eu fui ver outros lugares que fizeram crowdfunding também, lugares até maiores que nós em número de seguidores, e arrecadaram menos. Então acho que a gente foi muito bem sucedido. Quando a gente mandou email para a galera avisando que já podia consumir o que tinham comprado,, muita gente falou que nem era sobre isso, só queria ajudar mesmo. No começo não sabíamos quanto tempo ia durar, tanto que no crowdfunding nossa projeção era entregar os prêmios em julho de 2020. Doce ilusão, né? Os prêmios do crowdfunding do Fel estão sendo entregues agora.

Como foi no caso do Mandíbula?

A gente já tava nesse quase litígio com a galeria. A pandemia na verdade foi a gota d’água. Quando abri o Cama de Gato e o Fel, em 2017/2018, o Mandíbula ainda estava saudável. E antes da pandemia já era um lugar que em mês bom empatava, em outros dava prejuízo. A gente já estava buscando outro espaço para mudar o Mandíbula. Daí veio a pandemia e essa ideia de mudar foi parada. A gente olhou e falou que não fazia sentido manter. O Mandíbula fechou em maio3, dois meses depois da pandemia começar.

Teve alguma articulação entre donos de restaurantes e bares em algum momento da pandemia? Algo para além de grupos de WhatsApp?

Sinceramente, acho que não. Houve tentativas, mas tava todo mundo tão fudido da cabeça, demanda uma baita energia para articular algo do tipo, que nada avançou muito. Existe isso que você falou, grupos de Whatsapp, trocas, avisos de quem está fechando, vendendo equipamento. O que rolou bastante foi crowdfunding, muita gente começou a fazer depois de nós, muita gente me ligou de outros lugares, até perguntando se podia fazer. Nem é uma ideia tão original assim, mas teve pessoas próximas com medo de que pudesse achar que era uma cópia, esse tipo de coisa, outras pedindo dicas de como fazer. 

Então no momento você está trabalhando na publicidade, tocando o Fel e abrindo um novo negócio, vizinho de parede do Fel. O que você pode contar dele?

Posso contar tudo. O nome é Paloma4. Vamos entrar em soft opening a partir de 20 de setembro. É um bar no centro de São Paulo. Eu e a Luiza, que é minha namorada e minha sócia, temos um lance com essas pombas estranhas do centro de São Paulo, Paloma é pomba em espanhol e o logo é uma pombinha toda desmilinguida. O Paloma tem o dobro do tamanho do Fel, é pra ser um negócio diurno. Esse é um movimento que um pouco antes da pandemia eu já pensava, falava de mudar o Mandíbula de lugar, queria que fosse um lugar mais diurno, porque é mais condizente com o meu momento de vida. Então o Paloma vai funcionar do meio-dia à meia-noite, vai ter almoço, vai servir como uma loja de vinho também. Assim como no Fel, tem um pilar do Copan no meio do salão, e nesse pilar a gente vai fazer uma prateleira gigante com vinhos.

2022 em São Paulo: o que você acha que vai acontecer?

Acho que 2022 será um ano complicadíssimo com eleição, Copa do Mundo e pessoas vacinadas. Eu espero nada menos que uma convulsão social de grandes magnitudes. Falar de Carnaval, por exemplo, não sou tão otimista. Acho que é Brasil, tudo pode acontecer, mas pessoalmente não consigo me imaginar no meio de uma multidão. Espero um começo de ano meio comedido, pelo menos por parte da sociedade, mas sei lá. A vacinação tende a evoluir, as vacinas tendem a ficar melhores. Nesse ponto, sou otimista. Agora, sou muito pessimista das sequelas sociais das pessoas. Quando eu tava falando agora há pouco, de que não consigo me ver no meio de uma multidão, é uma sequela social, sabe? Ainda que pequena e muito pessoal, mas acho que há uma mudança de comportamento de quem passou por isso, de como vai se relacionar, de como vai viver em multidão.


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