[Paulicéia 016] Ilustrada, o principal caderno de cultura de São Paulo

Não é exagero algum dizer que a Ilustrada foi minha janela para o mundo.


Em 2018, a Ilustrada, caderno de cultura da Folha de São Paulo, fez 60 anos. Quase todas as suas fases foram registradas em dois bons documentos da própria Folha: o livro "Pós-Tudo, 50 Anos de Cultura na Ilustrada"1, lançado em 2018, e o especial "Ilustrada, 60 anos", publicado pelo jornal em 20182.

Quando, no futuro aniversário de 70 anos, a Ilustrada fizer uma atualização desse histórico, provavelmente vai começar pela guerra cultural de 2018 e a explosão de diversidade artística de 2019. Mas isso só arrisco dizer. Certeza mesmo é que vai ter que falar como foi cobrir cultura na cidade quando tudo fechou temporariamente — inclusive o jornal. Como foi fazer jornalismo cultural durante a pandemia. Como foi olhar a cidade reabrindo.

Talvez a coisa mais importante da Ilustrada, pra mim, que sou nascida e criada na mesma cidade que ela, seja o jeito como o caderno dialoga com São Paulo. Cresci numa casa em que sempre se assinou a Folha (entre tapas e beijos, até hoje) e não é exagero algum dizer que a Ilustrada foi minha janela para o mundo. A Gaía de treze anos literalmente guardava jornal velho: recortes ou páginas inteiras de coisas que eu via e gostava — e todas as colunas Noite Ilustrada, onde eu sonhava em aparecer (e apareci mais de uma vez, obrigada Erika!).

Filmes no cinema ou na TV, livros, shows, álbuns que chegavam da gringa até o Brasil: antes da internet essas coisas a gente ficava sabendo em revistas e jornais, e a Ilustrada era um meio do caminho entre os dois. Mais que isso: era quem contava o que estava acontecendo em São Paulo.

Faço parte da última geração que viveu o mundo sem internet, e do contingente de jovens brasileiros que adotou a web bem cedo: meu primeiro site estreou em 1997, mas eu já estava online desde 1995, no mínimo. Isso significa que minha forma de consumir conteúdo mudou muito ao longo dos meus 40 e tantos anos. E já tinha mudado antes da Ilustrada também começar a mudar, na virada dos anos 1990-2000. Porque, sim, o caderno mudou. Jornalistas deixaram de ser tratados como estrelas, pra começo de conversa, mesmo que ter um jornalão como credencial ainda seja a melhor forma de abrir portas (a depender do interlocutor). Anunciantes migraram, redações enxugaram e o público leitor hoje escolhe entrar em redes sociais antes de pensar em abrir um jornal - problemas que, claro, não são exclusividade do jornalismo cultural e afetam a indústria como um todo, no Brasil e na gringa3.

Nesses anos, a Ilustrada mostrou uma invejável capacidade de adaptação, seja chamando jovens roteiristas e escritores para atualizar as crônicas semanais, seja trocando programação de cinema e TV por uma rodada diária do que tem de melhor nos streamings. E mesmo na atual fase de vacas magras (os jornais nunca estiveram tão fininhos) tem mostrado a mesma conexão com o agora que pegou a Gaía adolescente – como as reportagens que o João Perassolo comenta na edição de segunda-feira, de festas de música eletrônica vanguardista. O Expresso Ilustrada, podcast semanal do caderno que sempre traz espaço para trap, pisadinha, tiktok e assuntos que repercutem fora da bolha, é outro exemplo.

Da minha parte, ainda sinto falta dos horóscopos diários. Mas sigo acompanhando, mesmo quando o caderno vem encartado em outro, algo que me parte o coração — aconteceu sábado passado. Só peço que nunca, jamais cancelem as palavras cruzadas.

E a Laerte, claro. Mas a Laerte é incancelável.

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Em São Paulo

Manifesto pela diversidade do Bom Retiro

O Bom Retiro é um dos bairros mais ligados às ondas migratórias que formam São Paulo. Conhecido pelas lojas de roupas populares, ótimos restaurantes e espaços culturais, em anos mais recentes o bairro ganhou enorme força junto à população sul-coreana. Por isso, o Cônsul Geral da Coreia do Sul em São Paulo propôs a criação de uma "Korea town" como forma de atrair turismo e investimentos e resolver problemas da região4.

A ideia não é nova: já foi citada pelo então prefeito João Dória, que em 2017  chamou o bairro de "Little Seoul"5, e pelo então Primeiro Ministro da Coréia do Sul, que em 2018 esteve no Brasil e em agenda oficial conversou com Dória sobre "a criação de uma estrutura que simbolize o país asiático no bairro de Korea Town".6 Em ambos os casos, é ignorado o fato de que o Bom Retiro historicamente também abrigou (e segue abrigando) fortes comunidades judias, peruanas, armênias e sírias.

"A proposta pretende impor a presença de uma onda migratória sobre todas as outras, passadas e futuras", entende um grupo de instituições do Bom Retiro, incluindo centros culturais, lojistas e ONGs, que publicou manifesto contrário à proposta pedindo abertura de diálogo sobre o assunto. "Fixar e rotular a sua identidade é reduzir – privatizar – a sua tão rica diversidade, apagar sua história, excluir boa parte da sua população e acabar com o próprio Bom Retiro."

O manifesto é assinado pelo centro cultural Casa do Povo, Teatro de Conteiner, Instituto Criar, coletivo Tem Sentimento, ONG Mulheres da Luz, Centro de Convivência É de Lei, coletivo mitchossó e FIT. É possível assinar e compartilhar a carta aberta criada pelas instituições.


Encontros Ameríndios:  mostra gratuita de arte indígena das Américas

Com obras de artistas dos povos Guna (Panamá), Huni Kuin (Acre, Brasil), Shipibo-Konibo (Peru) e Haida e Tahltan (Canadá), a exposição traz uma grande variedade de pinturas, desenhos, bordados e arte digital. A mostra é gratuita e está no SESC Vila Mariana até 22/02/2022. É necessário fazer agendamento.


São Paulo ganha cinco estátuas de personalidades negras

A escritora Carolina Maria de Jesus, a sambista Deolinda Madre (madrinha Eunice), o músico Itamar Assumpção, o compositor Geraldo Filme e o atleta olímpico Adhemar Ferreira da Silva são as personalidades homenageadas com cinco novas estátuas a serem inauguradas em São Paulo, em anúncio feito pela Secretaria Municipal de Cultura durante a Semana de Valorização do Patrimônio. As obras devem ser concluídas até o começo de 20227. Ótima iniciativa da Secretaria de Cultura8 em resposta ao questionamento das personalidades (no mínimo) controversas homenageadas em toda a cidade – são 40, incluindo o Borba Gato9.

Última chance na Avenida Paulista

Na Japan House, domingo é o último dia para ver "WINDOWOLOGY: Estudo de Janelas no Japão", que exibe diversas representações de janelas em seus papéis de transição na cultura japonesa, com foco em  design, arquitetura e literatura.

No IMS Paulista, a mostra “Palavras cruzadas, sonhadas, rasgadas, roubadas, usadas, sangradas”, de Miguel Rio Branco, também acaba domingo. Um dos principais fotógrafos brasileiros contemporâneos, Rio Branco tem obra marcada pelo cruzamento da fotografia com cinema, instalação e pintura.

As duas exposições são gratuitas e requerem agendamento.


Volto na sexta-feira com a thread da semana – a anterior foi sobre ir ou não ao cinema e é muito bom ver leitore/as tão conscientes e preocupados por aqui ;)

Na semana que vem, Josélia Aguiar, diretora da Biblioteca Mário de Andrade, conta sobre os desafios da instituição durante a pandemia, e o que será depois. Spoiler: o depois já é agora.