[Paulicéia 007] E a Pina, hein?

O diretor da Pinacoteca do estado fala sobre o antes-durante-depois da pandemia no museu mais visitado de São Paulo.

TL;DR 👉 Entrevista com Jochen Volz, diretor da Pinacoteca do Estado. A Pina está aberta e tem operado com 35% da capacidade de público. Mostra d'OSGEMEOS vai até 9 de agosto. 2022 trará mostra de Adriana Varejão, em conversa com celebração do centenário da Semana de Arte Moderna. Programação online da Pina deve continuar.


A Pinacoteca do Estado de São Paulo é tão querida por moradores e turistas que adotou o apelido recebido pela cidade: desde 2016 o nome oficial, adotado em logotipo, é Pina. Mais paulistano, só se fosse "Pi". 

O lindo prédio do Jardim da Luz, mais antigo parque público de São Paulo, é estrela de um conjunto de museus da região que inclui o Memorial da Resistência, a Estação Pinacoteca, o Museu de Arte Sacra e, muito em breve, o Museu da Língua Portuguesa, fechado desde o incêndio em 2015 e com previsão de reabertura ao público em 31 de julho.

A Pina está sempre no topo de listas de lugares favoritos de quem visita a cidade. Suas exibições de arte, em tempos pré-pandêmicos, tinham status de programa obrigatório. E Jochen Volz, diretor da instituição desde 2017, confia que a Pina voltará a atrair muita gente num futuro próximo. Na entrevista abaixo, gravada há algumas semanas, ele fala sobre o antes-durante-depois da instituição e como ela foi afetada pela pandemia.

Gaía - Como vocês receberam a notícia da pandemia em março do ano passado?

Jochen Volz - Sabíamos que estava chegando, mas não que ia chegar tão rápido. Abrimos em 13 de março de 2020 uma exposição na Estação Pinacoteca, do Hudnilson Jr, que estávamos planejando há tempos. Lembro que nesse momento todo mundo já estava falando oi à distância. Não lembro se as pessoas já usavam máscara, mas já tinham um cuidado. Aí recebemos a notícia no dia 15 de que o museu iria fechar. No dia 16, então, nós fechamos. E no dia 17 lançamos nosso programa Pina de Casa, com todas as atrações online. Fomos muito rápidos.  Tivemos que criar outra fórmula para manter um diálogo com o público. Estávamos no meio da montagem da exposição OSGEMEOS:Segredo, e continuamos trabalhando nisso até o dia 19. Aí percebemos que era irresponsável, fechamos e suspendemos a montagem. Ficamos fechados até 15 de outubro direto.

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A Pina se tornou muito presente para as pessoas no online. Como foi esse processo?

Fizemos alguns outros programas no Instagram, começamos em maio uma primeira exposição organizada só para a internet, com vídeo, filme. Uma das nossas curadoras fez uma apresentação desse conjunto, era possível ver os filmes na tela, no site da própria Pinacoteca. Fizemos muitas lives. E vale lembrar que estava todo mundo muito ansioso para a exposição d'OSGEMEOS, que só voltou no dia 15 de outubro e fica até dia 9 de agosto.

Foi importante fazer uma reflexão sobre o que para nós é mais precioso: manter uma relação com o público, oferecer conteúdos para esse público. Então trabalhamos primeiro nos acervos.


A vacinação, adiantada pela Secretaria de Saúde, teve ou deve ter algum impacto na quantidade de público?

Não, porque estamos operando entre 30 e 35% do público normal. Mas os ingressos sempre esgotam! Temos investido em oferecer uma experiência segura, com protocolos, agendamento de pequenos grupos com horários fechados, controlar a visitação dentro das sete salas onde está a exposição atual. Porque o museu é grande, no museu inteiro você se perde, mal encontra com alguém, mas na exposição mesmo, que é o nosso principal objeto de desejo de visitação, estamos controlando muito para que tenha um fluxo único. Pedimos para as pessoas não irem e voltarem, para evitar acúmulos e gargalos. A exposição foi adaptada um pouco para isso. No caso d'OSGEMEOS a gente estava contando com um público totalmente diferente, de pelo menos cinco, seis mil pessoas por dia. Estamos em 800 pessoas por dia. Para administrar um fluxo tão grande, muito superior ao nosso normal, já tínhamos pensado no fluxo único, então muitas das precauções necessárias agora, por causa da pandemia, já estavam sendo pensadas para essa exposição em função do grande público esperado. 


E vocês prevêem continuar trabalhando com esses 30% de público até quando?

No momento em que a gente alcançar uma margem de 70, 80% da população  vacinada, acho que a situação será outra. Pelo plano do Governo do Estado, acho que chega lá por volta de setembro, outubro. Aí eu acho que teremos um impacto. Mas gradualmente, como já tem sido. A gente já tinha chegado no momento onde poderia, teoricamente, receber 60% da capacidade total de público, não fizemos isso. Ficou no mesmo patamar, porque a gente quis manter a distância entre as pessoas. Não importa quantas pessoas cabem no prédio. Como eu garanto dois metros entre uma pessoa e outra na sala d'OSGEMEOS? Após essa exposição a gente pode pensar em aumentar o público, pensando em distribuir melhor pelo prédio inteiro.

Como foram afetadas as outras áreas da Pina, a Pina Estação e o Memorial da Resistência

Foi o mesmo impacto. A Pina fechou, eles também. Mas assim que abre tem visitação. Para nós todos foi uma  comprovação que a cultura realmente é um pilar estrutural da sociedade, que as pessoas querem visitar, querem ter contato com a cultura, com a arte. Precisam imaginar caminhos, pensar para a frente. Claro, teve uma redução muito significativa. A Pina Estação, por exemplo, teve uma exposição muito importante no segundo semestre do ano passado, uma retrospectiva da Joan Jonas, grande pioneira da videoarte norte-americana. Essa exposição abriu em outubro e tinha que fechar em fevereiro, um período relativamente curto e com visitação muito reduzida. A gente queria muito que mais pessoas vissem, mas não era possível. O Memorial tem a mesma situação e sempre teve visita, sempre tem pessoas buscando. Lá tem um impacto diferente por causa das visitas escolares, é um destino clássico de grupos de escola.


Tem alguma coisa do processo de vocês, ao longo desse ano, que você sentiu que não funcionou?

A interlocução com o público por meios digitais foi um processo muito interessante. Algumas estratégias funcionaram melhor que outras. Até dentro da curva que todo mundo viveu, Pinacoteca e todos nós, alguns formatos se esgotaram um pouquinho. Mas os cursos se tornaram uma coisa muito importante. Por exemplo, no primeiro semestre de 2020, nós fizemos várias lives, com a Grada Kilomba, com OSGEMEOS, falamos sobre áreas do museu, e funcionou. Aí a procura por cursos começou a aumentar. Agora estamos oferecendo cursos compactos com temáticas muito distintas. A cada mês temos 200, 250 inscrições.

É interessante como o comportamento pandêmico do público tem mudado. Para mim, a grande responsabilidade agora é como levar isso para o físico. A ideia de que nosso público pode se tornar usuário, entender que isso é um bem de todas e todos. O usuário é uma participação direta na construção desse todo, isso é muito legal. 


Qual é a programação de 2022?

A Pina já tem programação, mas ainda não publicamos porque não tem nada 100% confirmado, tudo está em fluxo. Mas já dá para dizer que temos um grande panorama da Adriana Varejão previsto para março. Vai ser a grande mostra do primeiro semestre, pensando que é uma artista que tem um legado moderno, mas também da história do Brasil de uma forma muito crítica. Acho que isso será nosso comentário para as reflexões sobre o centenário da Semana de Arte Moderna.


Em relação ao centenário, a Pina tem algo mais específico planejado, como cursos?

Temos alguns projetos. Vamos abrir no final de julho uma exposição do John Graz,  que vai ser acompanhada com cursos, reflexões e debates sobre várias disciplinas. A ideia é mostrar o John Graz como artista que participou ativamente da Semana de 1922. E lá por outubro vamos abrir uma exposição chamada "A Máquina do Mundo" que vai até fevereiro, então passa pela comemoração da Semana. É uma exposição e reflexão, com um curso, sobre esse momento moderno do final do século XIX e início do século XX. A industrialização, a urbanização, como essa ideia da tecnologia se inseriu na produção artística e como isso continua ainda hoje. Então os artistas  trabalham com máquinas, com traquitanas, com aparatos que usam lógicas de distribuição industrial. 

E depois que a Pina reabrir totalmente, os cursos online devem continuar?

Eu acho que sim. Os cursos são uma atividade que funciona muito bem no online. Mas a convivência e a vivência com arte, com a experimentação na arte, é algo tão essencial, tão importante que vamos querer promover isso o mais rápido possível. Então acredito que será uma programação híbrida, com alguns elementos online. Tivemos recentemente o curso "Infâncias Negras no Brasil Escravagista'', com o professor Rafael Domingos Oliveira, que teve inscrições do Brasil inteiro. Outro recente, com a Naine Terena de Jesus, curadora que fez a nossa exposição Véxoa, sobre exposições de arte indígena, é um clássico caso de curso com interesse do Brasil inteiro. Essa discussão a gente quer manter, essa abertura, e extrapolar os limites da cidade, do espaço físico.

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Na edição de quarta-feira: saiba mais sobre a exposição OSGEMEOS: Segredos, que fica na Pina até 08 de agosto.


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